Guilhermo (jeans), ao lado de Bruno (camisa preta) na 1º Comunhão da irmã Marina e da prima Malu. Foto: divulgação

‘Ele se foi feito um passarinho’.

Foi assim, com essas palavras e uma xícara de chá na mão, que minha mãe trouxe a notícia naquela manhã de verão. Após anos de muita luta, meu primo Bruno havia nos deixado, aos 17 anos. Era dia 3 de março de 2000. Sempre fomos irmãos inseparáveis — creio, verdadeiramente, que ainda somos, uma vez que ele ainda se faz muito presente.

O futuro? Já tínhamos tudo combinado. Primeiro jogaríamos no Corinthians, meu time do coração, e depois no Flamengo, a quem ele tanto amava. Mais tarde, quando a nossa falta de habilidade com a bola nos pés ficou evidente, recalculamos a rota e combinamos de ser jornalistas.

Há alguns dias, passados 17 anos, tenho carregado comigo uma velha agenda. O ano? É do ano 2000. Trata-se da agenda do Bruno, onde ele registrava seu dia a dia, já com um olhar de repórter. Ele registrava datas, acontecimentos, aniversários, etc, tudo direitinho, com muita precisão. Também guardava cartas (achei uma para mim) e mais um monte de papéis, como folhetos de quimioterapia e santinhos com orações, além de recortes de jornais e outras coisas.

Nesses dias, já li e reli a agenda. Tem de tudo, só não encontrei uma frase ou palavra sequer de lamentação, queixa ou tristeza. Nadica de nada.

Mesmo depois de tanto tempo, meu primo segue me ensinando lições preciosas. Às vezes, reclamamos tanto de nossos problemas banais e não nos damos conta de como somos abençoados, né?

Uma data em especial me chamou a atenção na agenda. Na página ao lado de 3 de março, havia o dia 4 (obviamente), onde Bruno escreveu que completaria 18 anos.
Infelizmente, não deu tempo.

Costumamos pensar na vida de um homem como um livro com começo, meio e fim. Será?
Penso que, em geral, as vidas são histórias incompletas. Interrompidas.’Free as a bird’, dizia o refrão de uma das canções inacabadas de Lennon, vítima de um lunático quando ia para casa dar um beijo de boa noite no filho. Por semanas, logo depois do crime, os gatos do beatle esperavam por ele dia e noite, próximo à porta de entrada do apartamento do edifício Dakota.

Ao ler sua agenda, 17 anos depois, aquele Bruno de 17 anos me ensina que a vida não deixa nada – absolutamente nada – agendado. Só temos o agora. E por vezes nos esquecemos e deixamos para mais tarde, ao invés de vivermos como se não houvesse amanhã — “porque se você parar pra pensar, na verdade não há” (canta Renato Russo, ídolo do Bruno). Ou esquecemos de dizer que amamos.

Esquerda para direita: Gui, Bruno, Santiago, vó Nívea e Julio
Esquerda para direita: Gui, Bruno, Santiago, vó Nívea e Julio. Foto: arquivo pessoal/divulgação

A verdade é que às vezes a saudade aperta.

Mas sempre que sonho com meu primo, acordo com passarinhos na janela.

E eles estão livres. Cantam e voam. São como um sopro. Lindos e delicados como a vida.

Entrem. Não tenho nada agendado. A porta está sempre aberta para quem é de casa.

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